sexta-feira, 9 de março de 2018

Atrás da porta

Casa de madeira. Clic! Roupas penduradas. Clic! Pessoa varrendo. Clic!
Um menino correndo...
Não deu tempo.
Passou por mim e sumiu.

A rua ficou silenciosa de novo.
...
Clic!
- Aqui é minha casa!
Eu sabia que ele não estava longe.
Uma porta abriu levemente atrás de mim, deixando aparecer uma cabecina.
Fiz de conta que eu não estava vendo e fiquei tirando fotos. Depois de um bom tempo me observando, ele perguntou:
- Você é menino ou menina?
Dei um tempo antes de responder. Não esperava essa pergunta, apesar de já ter passado muitas vezes por essa situação com outras crianças.
- O que você acha?
Ele encolheu os ombros e foi sumindo de novo atrás da porta, como se tivesse feito alguma coisa errada. Ele devia ter sete ou oito anos. Baixei a máquina e olhei para ele sorrindo, deixando claro que estava tudo bem, que eu não estava ofendida.
- Sou menina.
Então, ele botou de novo a cabecinha para fora, agora mais seguro... avaliando a minha resposta...
E não ficou satisfeito, não.
- Então, por que é que você tem o cabelo curto?
- Porque eu cortei, ué!
Sacudiu a cabeça com ar muito sério.
- Não pode.
- E por que não?
- Porque se você é menina, tem que ter cabelo comprido!
Essa também, já ouvi muito, e de várias crianças.
Não respondi nada. Voltei para a minha tarefa, escondendo os pensamentos atrás da máquina.
Ele também encostou a porta para se esconder... Mas logo abriu de novo... E fechou. Abriu. Fechou. Abriu:
- E por que você usa roupa de menino?
- Eu uso roupa de menino?
- Tá usando!
- Isso aqui que é roupa de menino?
- É!
- Nossa! Eu nem sabia!
Da minha ironia, ele não achou nenhuma graça.
- Você é menina! Tem que usar roupa de menina!
- Sei lá... Eu uso as roupas que eu quiser... E o cabelo que eu quiser...

Sem eu mesmo perceber, acabei me aproximando bastante dele, parando na entrada da casa.

Ele brincando com a porta e eu aqui do outro lado, apontando a máquina bem na cara dele...
Abriu. Fechou. Abriu. Fechou. Abriu... CLIC!
- Ei!
- Tirei!
Eu ri, sincera. Ele fez uma cara de bravo, mas não interrompeu a brincadeira. Ela já era parte da nossa relação.
Ele abrindo a porta lentemente... Olhando no meio do objetivo... Deixando à vista apenas um fiozinho de rosto... E fechando num susto!
Abriu... ... ... Fechou!
Abriu... ... ... ... e deixou aberto... justo na largura da pupila...

Então, ele falou assim, bem baixinho:
- Eu também gosto de usar roupa de mulher.


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