terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Noite carioca

Saí de casa meio correndo, como sempre, no impulso, enfiando rapidamente as coisas no bolso: chave, celular, caderno, dinheiro...
Parei.
Dei uma olhada geral no quarto. Aquela impressão de estar esquecendo algo...
Apanhei o violão e fui.

Já era noite, mas não sei que horas. Nem sei para onde eu estava indo. Era domingo.
BAM!
Uma moto. Atropelada bem na minha frente. Dois meninos jogados no chão que nem bonecos. Vivos. Nada muito grave. Um pode ter quebrado a perna, o outro deslocou o ombro. A SAMU chegou.

Atravessei a rua e fui parar num boteco.
- Moço! Me dá uma...
O garçom já estava vindo na minha direção com sorriso cúmplice e martelinho de cachaça na mão.
Sentei.
E fiquei aí me questionando sobre a necessidade de me questionar sobre a minha vida no Rio.

- É que a vida é dura!
Quando ergui a cabeça, tinha um rapaz do meu lado.
- É assim mermo! A vida é dura! O cara que não sabe!
- Quer uma cachaça?
- Precisa, não. Tenho a minha.
Ele levantou a camiseta para me mostrar a garrafinha de caninha da roça que ele guardava amarrada na cintura.
- E aí? O que houve? - perguntei.
- Furei! Eu passei o dia todo catando latinhas, sabe o que é isso? É trabalho! E aí, eu tava indo pra lá pra vender e o cara veio me roubar. Eu furei ele!
- Como assim?!
Ele olhou pros lados e puxou o cantinho da luva que ele usava na mão direita, deixando aparecer duas facas afiadas.
- Eu ando preparado...
- ...
Botou um cigarro na boca e agarrou um isqueiro no balcão.
- E cadê as latinhas?
- Vendi. Assim eu comprei a cachaça! E ainda sobrou!
Ele abriu a outra mão para me mostrar um papel bolado que parecia uma nota de 10 reais.
- E cadê o cara?
- Sei lá!
- Mas ele tá bem?
- Levantou, foi embora!
- ...
- Ele achava o quê? Que podia mandar em mim? Só porque tem duas vezes meu tamanho? Ele não sabe, não! A vida é dura! Eu te digo! Tive que furar!
Ascendeu o cigarro e foi embora.
- Tchau! Desculpa qualquer coisa!

Fiquei sem reação, vendo ele se afastando no escuro. Alguém veio falar no meu ouvido.
- Rio de janeiro, menina. Te cuida.
Um senhor. Respondi com olhar indiferente. E puxei o violão, que é o que eu faço quando não sei o que fazer.

Comecei a dedilhar. Uma turma barulhenta e bêbada passou então na frente do boteco. Titubeando. Alguns aproveitaram para entrar.
- Olhaí que tem até um cara tocando!
Ficaram me observando um tempo.
- É menina.
- Heim?
- Você falou "um cara". Mas é uma menina!
- É.
Até que num gesto totalmente natural, um homem pegou a minha cachaça e tomou ela num trago só.
- UÉ!!!
Gritei. E parei de tocar. Ele levou um susto.
- Era sua? Foi mal...
- Agora pede outra!
- Será?
- Simsinhor!
Ele pediu. Pediu até duas. E mais uma carteira de cigarro. Mas o resto do grupo já estava querendo ir embora.
- E aí? Tão fazendo o quê?
- Comprando cigarro!
- Tão demorando!
- Por causa dela! Ela que tá tocando!
- O que é que tem a ver?
O homem virou para mim, cobrando.
- Não é que você canta?
- ...
- Então manda um samba aí para eles ver!

Silêncio.
Todo mundo olhando para mim. Esperando alguma coisa acontecer.
E aí?!
Tudo bem. Baixei a cabeça e comecei a tocar.
Eu nem estava no terceiro acorde, quando a turma toda se empolgou para cantar junto.
E assim seguimos a noite, na maior alegria, passando a viola, desafinando Chicos e Caetanos.

Quando o último cara espalhou todas as suas moedas no balcão e perguntou se podia pagar com R$2,35 uma última dose daquela mineira, entendi que estava na hora de ir embora.
Guardei a viola.
O garçom pegou os trocados e serviu um mais martelinho transbordando de pinga.
- Cê mora longe?
- Por aí...
- Te cuida...
- Eu sei.

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