segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Conversa de botequim

Eu tinha saído para dar pedalada, quando a chuva me pegou e mudou os meus planos. Fui então me abrigar num boteco daqueles, com samba e futebol, ambiente apertado, pessoas conversando de uma mesa para a outra, e um garrafão de cachaça mineira no balcão. Quem dera meus olhos fossem câmera! Eu poderia ficar horas num lugar como esse, observando os jeitos, gravando as almas...

- Gringa?
- Gaúcha.
- Gremista?
- Colorada.
- Cerveja?
- Cachaça.
O cara gostou de mim. Louco para falar. Um senhorzão sem idade que veio lá da Bahia, na época em que ele jogava bola. Mas depois começou a trabalhar em filmes, na parte da produção. Nunca foi ator. Mas ganhava dinheiro, sim.

A nossa conversa foi cortada pela chegada de um rapaz muito bonito que usava um vestido azul justo e comprido, chamando todas as atenções. Foi até ao balcão, pediu alguma coisa e ficou esperando, ignorando com estilo as pessoas rindo ou tirando onda. Meu vizinho ficou meio sem jeito, envergonhado comigo, e falou como se precisasse pedir desculpa pela cena.
- Meio louca, heim?
O menino pegou o seu trago num copo descartável e saiu sem despedir. Mas juro que ele piscou o olho quando passou por mim...

Fui sentar junto com outros senhores que estavam assistindo mais uma derrota do Fluminense contra Chapecó.
- Eu queria conversar com você...
Uma mulher baixinha de uns 40 anos veio sussurar no meu ouvido.
- Eu?!
- Mas você vai ficar chateada...
- ... Vou não...!
- Sei lá... Será que não vai, mesmo?
- Claro que não! Vamos!
Levantei para a gente se afastar um pouco da mesa.

- Assim. É meu filho. Ele tem 13 anos. Mas já é diferente... Ele quer implantar peitos.
- ...
- Achei que você entenderia...
- ...
[Pois é... você que está lendo isso, deve estar entendendo muito melhor do que eu].
- É que eu tô preocupada... É meu filho! Não queria que acontecesse algo com ele. É que nem você. Você já conquistou todos os homens aqui. Estão todos te olhando... Mas você tem que se cuidar, heim?!
- Mas eu me cuido! Que é que cê acha?!
- Estou preocupada com ele.
- É que seu filho é muito novo! Você tem que conversar com ele. Quando tiver 18 anos...
- 18 nada! Ele vai ter que arrumar primeiro um trabalho e uma casa para ele!
- Mmm... Mas peraí! Por que é que você veio falar isso comigo? A gente nem se conhece!
- É que eu estava te olhando. E te achei muito bonita... ou bonito, sei lá. Alguma coisa. Você parece a Ivana da novela. Sabe a Ivana?
- Sei. [Mentira. Alguém ajuda?]
- Então... achei que você poderia entender.
- Ah, tá.
O papo seguiu. Ela contando a sua vida, eu incapaz de assimilar tanta informação. Ela me convidou para aparecer no aniversário dela, Terça-Feira. Vai fazer uma comida em casa. Só não é para chegar muito cedo, nem muito tarde.
- Mas agora, vamos voltar pra lá, porque eles estão todos com raiva de mim. Roubei você...
- Ué! A gente conversa com quem quiser!
Ela baixou os olhos.
- Sabe o que? Acho que vou aceitar meu filho como ele é...
- ... Queafudê...

Ela sumiu para dentro do boteco. Eu fiquei na porta, os caras olhando para mim com sorriso curioso. Confesso que aquele copo de cachaça se tornou meio sem graça. Não consegui mais tomar. A minha cabeça já estava em outro lugar. E a chuva de repente tão tímida... Não demorei muito para ir embora.
- E MEU BEEEIIIJOOO???
Louca sou eu de achar que podia sair assim de fininho, sem despedir da Ana.
- Te espero na Terça!
- Combinado!
- Vou falar pro meu filho que você vem... Meu filho... minha filha... enfim...
Ela ficou um tempo pensativa, como analisando suas próprias palavras.
Lhe dei mais um abraço apertado e fui embora.

Eu não entendo NADA dessa vida.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

As nossas opiniões

Com essas idas e voltas entre dois mundos, compartilhando experiências e narrativas, eu fico cada vez mais preocupada ao perceber a facilidade com que se constrói uma opinião. Nada mais fácil, aliás, do que ter uma opinião sobre algo. Não é preciso nenhum conhecimento prévio para inventar ou adotar uma ideia e ainda defendê-la nas redes sociais, num boteco ou na imprensa. Pior: em geral, quanto mais desinformada a pessoa, mais formada a opinião.
Meu Tio Santiago sempre disse: quem viveu um dia num país escreve um livro, quem viveu uma semana escreve um capítulo, quem viveu um mês escreve uma frase... quem viveu mais de um ano já não escreve nada. Eu diria que quem nunca saiu de casa escreve enciclopédia.
Aqui na França, muita gente, inclusive de esquerda, expõe sua opinião sobre a política do Brasil, com a certeza de que a Dilma foi afastada por corrupção, que a prisão do Lula é um pedido popular, que a mídia brasileira é livre e a justiça imparcial. Costumo responder (depois de respirar fundo) que a situação é um tantinho mais complexa...
No Brasil também, já passei noites inteiras discutindo sobre a Europa e, em especial, sobre a questão do terrorismo islâmico, me deparando muitas vezes com uma visão meio estereotipada dos "árabes" e das "periferias" francesas. Bom lembrar que o islam é uma religião com várias correntes (inimigas), abrangendo centenas de países, etnias, idiomas, pensamentos, práticas, e classes sociais das mais ricas às mais pobres do mundo. Também me parece arriscado atrever-se numa leitura das sociedades europeias com referências sul-americanas.
É que as coisas não são triviais. Nenhuma matéria jornalística, nenhum vídeo, nenhum livro poderia relatar de maneira minimamente ampla essas problemáticas.
Só nos resta opinar a toa... Ou então moderar o nosso discurso e aceitar certos limites.
Ou mais difícil: adotar uma atitude.
Porque o mundo não precisa de tantas opiniões (já tem muitas!): ele precisa de ações.
Ações locais, humanas, concretas, humildes, fortes. Cada um fazendo sua parte.
Esperando e confiando em que outras pessoas também estejam fazendo sua parte em outros lugares, interferindo com uma realidade que é delas e que elas conhecem melhor do que nós.
Bora?