sábado, 30 de dezembro de 2017

Pequenos cuidados

"Eu queria que você se cuidasse mais..."
Lembro muito bem da única vez em que um amigo me falou isso, ainda com toda a cautela de quem suspeita a minha propensão meio adolescente a estourar com esse tipo de intromissão na minha vida.
Agora, não lembro de quantas vezes eu quis falar a mesma coisa para uma pessoa que eu amava. Nem foram tantas vezes. Mas igual, não falei. Provavelmente por orgulho e respeito escancarado pela liberdade dos meus amigos; ou por não ter encontrado a mesma delicadeza no tom e nas palavras.
Ou talvez, também, por medo de reproduzir a hipocrisia de uma sociedade que fica alertando a gente o tempo todo mas anda conscientemente a caminho de um suicídio coletivo. Tipo, o irmão que te manda fechar os olhos, te puxa pelo braço em direção ao abismo e te assusta a cada passo com os buracos da estrada.
Ou tipo a mãe que põe uma panela de brigadeiro na tua frente, uma colher na tua mão e sai avisando (com pouca veemência) que não é para comer porque faz mal.

E você fica aí, roído pelo súbito desejo de um docinho, mas sem conseguir avaliar a seriedade do risco e o tamanho das tais consequências. Pois aqui estamos todxs: mercê de uma civilização decaída, que inventou o pornô com camisinha, o banho de sol com protetor e a coca-cola zero vendida em farmácia.

"A cada geração seus problemas" me explicou um dia um velho amigo que hoje faz carreira na indústria petroleira.
...
Você agarrou a panela quase sem perceber, já no automático, enquanto estava fazendo as contas.
São 24 horas por dia. Oito horas no trabalho, duas no transporte, duas para comer e sete para dormir. Resta encaixar a novela, a igreja, o jogo, a maconha, os filhos e o namoro. Realmente, e mesmo contando com o fim de semana (salve!), sobra pouco tempo para viver - e ainda com cuidado.

Chegando nessa conclusão, você segue se deleitando como nunca com aquele concentrado achocolatado de açucar e lactose. Mas sem deixar de lembrar das sagradas recomendações da sua mãe.
Cuidado para não se sujar, cuidado para não cair, cuidado para não se machucar, cuidado para não se resfriar. Cuidado para não esquecer de nada, para não se atrasar, para não se perder!
Não sai pra rua sozinho - nem mal acompanhado! Nem se casa à noite. De dia, só armado.
Cuidado com o assaltante, cuidado com o motorista, com o cachorro brabo, com o bichinho da goiaba, com o calor, com o frio, com a chuva, com o vento...

MA ESTOU ME CUIDANDO, MÃE! Eu me cuido, me cuido, sim, todo dia! A prova é que estou viva! Pedalando com toda força - cadê o capacete, p...?! - no meio dos carros. Até pararia no sinal, se eu não estivesse na contra-mão.

É quase meia-noite.
Eu já não sei mais o que eu queria dizer com esse texto.
O amigo petroleiro tomando drinque em Dubai e você cuidadosíssimo ao raspar o fundo da panela com a ponta da colher.
Todxs nós começando de repente a questionar a prerrogativa do prazer de hoje em relação ao amanhã.
Mas indo dormir às 23h59, com a consciência aliviada.
"Amanhã é outro dia", disse um tal profeta.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Certos Errados

Coloquem na mesa de um debate duas pessoas honestas, igualmente inteligentes e com uma certa afinidade em termos de valores e ideais: mesmo assim, há uma grande probabilidade de que elas acabem encontrando algum ponto de discordância sobre o assunto discutido.
Mas qual seria, então, a proposta de um tal confronto? Definir quem está "certo" ou "errado"? Confesso que tenho as minhas dúvidas em relação à eficiência (e utilidade pública) de tantos debates cegos e surdos, onde os participantes competem entre eles por um glorioso prêmio da razão.

Deixa eu contar uma história. A de um morador de rua que eu conheci em Curitiba e que me explicou um dia por que, apesar das dificuldades que ele estava passando, ele não sentia nenhuma vontade de seguir um caminho mais inserido na sociedade. Aquelas pessoas tristes e caretas atravessando a praça... Aquele estresse do trabalho, do carro, dos horários, da família... Ele não queria isso para ele. Preferia se virar de outro jeito. Perguntei meio brincando o que a mãe dele achava disso. Ele respondeu muito sério, ponderando.
"É... minha mãe... ela acha muito errada a minha vida. Mas é que ela tem o "certo" dela. E eu tenho o meu "certo". Cada um tem seu "certo" na vida. É assim...
Suas palavras ecoavam na minha cabeça enquanto, na rua, dezenas de carros parados no trânsito emitiam numa nuvem de fumaça quente. O menino seguiu falando:
"Mas olha... O meu certo... nem é tão errado assim!"

É que o nosso "certo" nunca deixará de ser nosso. Quer dizer, por mais metódicos sejam nossos raciocínios, eles se baseiam apenas na informação que chegou aos nossos ouvidos e nas percepções extremamente pessoais que temos da realidade. É bom lembrar que a nossa leitura de qualquer situação vem sempre filtrada pelas nossas experiências e lembranças, referências culturais, educativas, acadêmicas, relacionais (...) e até pelo nosso estado emocional.
E é por isso mesmo que a troca de ideias com outras pessoas, desde que procure entender as divergências e não combater o pensamento alheio, é tão revolucionária. Sim, revolucionária. Porque os nossos "certos" e "certíssimos" têm sempre alguma coisa de errado, algum elemento faltando que ainda nos cabe descobrir para poder evoluir e crescer.
Essa busca, desconstrução permanente de si mesmo, baseada no respeito pelo outro, é o que nos mantém vivos, enquanto o estado vegetativo da velhice começa justamente com a pretensão de ter visto tudo e com a arrogância de achar que sua experiência já vale todas as outras.

Nesses tempos de intolerância máxima, temos que ter paciência e juventude na alma. Não podemos envelhecer agora...
Sequer começou 2018 ainda!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Sobre Porto Alegre


Sobre Porto Alegre

Sobre o desejo de estar onde as coisas acontecem
Sobre o dever de estar onde as coisas (ainda) não acontecem

Sobre estar num lugar
Sobre realmente estar num lugar

Sobre partir e permanecer
Sobre morrer e seguir existindo
Sobre não morrer

Sobre o orgulho de ser alguém
Sobre o conforto de não ser ninguém

Sobre a leveza da desapego
Sobre o peso do vazio

Sobre a facilidade de largar
Sobre a dificuldade de dar

Sobre liberdade

Sobre cobrança

Sobre voltar pra casa
Sobre ter uma casa

Sobre acumular coisas boas
Num espaço limitado
Sobre renunciar

Sobre persistir numa tarefa
Sobre acomodar-se numa tarefa
Sobre prender a si mesmo

Sobre não enxergar mais nada além do muro na sua frente
Sobre derrubar esse muro

Ou virar as costas
Para não derrubar
...


[Alguns pensamentos que ocuparam a minha mente nas últimas semanas.]

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Diário de bordo

SÁBADO. Descanso. Chuva. Festa. Abraços, abracinhos e abrações. DOMINGO. Mutirão e anarquia. Rango coletivo de casa cheia. Logo vazia. SEGUNDA-NADA. Catando caracóis na horta e lesmas no banheiro. Reunião aleatória. O coletivo às vezes é muito mais eficiente do que a própria polícia para desmoralizar qualquer um. TERÇA-CAMA. Pregadona. Martelo batendo na cabeça. E a gente sem ferramentas na ocupa. Levantei ao som dos tambores: cinco da tarde. Crianças curtindo a oficina. Voltei a sonhar. QUARTA-VIDA. É dia de feira. Sete horas orgânicas, tocando, conversando, rindo, revendo, recebendo, renascendo. QUINTA-CAÑA. Sutil tarefa de provar a cachaça às 11hrs da manhã. E ainda trocando ideias. Boca de Rua: nova edição. Agora sim. Posso dizer que não lembro ter sido recebida com tanta alegria e amor em nenhuma grupo na minha vida. De volta pra ocupa: reuniões, fogueira, caipora, violão (na desordem). SEXTA-CHUVA. Esticando lonas a manhã toda. Encontros e desencontros. A cabeça estourando com tantas informações do tipo que não-se-pode-falar-para-ninguém (assim pelo menos me avisaram aqueles que me contaram). Bateu a saudade. SÁBADO. Cedinho no trampo. Dessa vez, eu vi o cara colocar a nota de 50 no chapéu. Não acreditei mas eu vi. Fim da tarde com a criançada brincando no galpão. Arrasadora, em todos os sentidos. DOMINGO. Passou da meia-noite e aqui tô eu. De plantão numa ocupação de 2000m². Até que estaria tudo bem se não fosse o mal contato dessa luz piscando em cima da minha cabeça. E a carteira de cigarro quase acabando. Pois é... Olha só o tamanho das dúvidas... 
....
Mas que porrada de semana foi essa?!

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Eles não sabem



É que eles não sabem
Não sabem quem somos
Não sabem da nossa força
O caminho das nossas ideias
O sangue das nossas veias

Eles não sabem da felicidade
Dos nossos encontros
Eles não sentem o ar que circula
Entre nós
Os nossos olhares
Palavras e silêncios
Eles não sabem
O quanto estamos vivos
O quanto estamos juntos
Afinados
Eles não entendem
Os nossos abraços, os nossos beijos, os nossos jeitos
Eles não concordam!

É que eles não sabem da liberdade
De pular e berrar e rir e gozar de verdade

É que eles não vivem, sabe?
Eles enquadram

Eles têm medo do nosso amor
Chamam ele de raiva
Mas não sabem do calor nem do frio
Não sabem da alma nem do corpo
Não sabem da paixão e nem do sopro
Eles não sabem...


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Conversa de botequim

Eu tinha saído para dar pedalada, quando a chuva me pegou e mudou os meus planos. Fui então me abrigar num boteco daqueles, com samba e futebol, ambiente apertado, pessoas conversando de uma mesa para a outra, e um garrafão de cachaça mineira no balcão. Quem dera meus olhos fossem câmera! Eu poderia ficar horas num lugar como esse, observando os jeitos, gravando as almas...

- Gringa?
- Gaúcha.
- Gremista?
- Colorada.
- Cerveja?
- Cachaça.
O cara gostou de mim. Louco para falar. Um senhorzão sem idade que veio lá da Bahia, na época em que ele jogava bola. Mas depois começou a trabalhar em filmes, na parte da produção. Nunca foi ator. Mas ganhava dinheiro, sim.

A nossa conversa foi cortada pela chegada de um rapaz muito bonito que usava um vestido azul justo e comprido, chamando todas as atenções. Foi até ao balcão, pediu alguma coisa e ficou esperando, ignorando com estilo as pessoas rindo ou tirando onda. Meu vizinho ficou meio sem jeito, envergonhado comigo, e falou como se precisasse pedir desculpa pela cena.
- Meio louca, heim?
O menino pegou o seu trago num copo descartável e saiu sem despedir. Mas juro que ele piscou o olho quando passou por mim...

Fui sentar junto com outros senhores que estavam assistindo mais uma derrota do Fluminense contra Chapecó.
- Eu queria conversar com você...
Uma mulher baixinha de uns 40 anos veio sussurar no meu ouvido.
- Eu?!
- Mas você vai ficar chateada...
- ... Vou não...!
- Sei lá... Será que não vai, mesmo?
- Claro que não! Vamos!
Levantei para a gente se afastar um pouco da mesa.

- Assim. É meu filho. Ele tem 13 anos. Mas já é diferente... Ele quer implantar peitos.
- ...
- Achei que você entenderia...
- ...
[Pois é... você que está lendo isso, deve estar entendendo muito melhor do que eu].
- É que eu tô preocupada... É meu filho! Não queria que acontecesse algo com ele. É que nem você. Você já conquistou todos os homens aqui. Estão todos te olhando... Mas você tem que se cuidar, heim?!
- Mas eu me cuido! Que é que cê acha?!
- Estou preocupada com ele.
- É que seu filho é muito novo! Você tem que conversar com ele. Quando tiver 18 anos...
- 18 nada! Ele vai ter que arrumar primeiro um trabalho e uma casa para ele!
- Mmm... Mas peraí! Por que é que você veio falar isso comigo? A gente nem se conhece!
- É que eu estava te olhando. E te achei muito bonita... ou bonito, sei lá. Alguma coisa. Você parece a Ivana da novela. Sabe a Ivana?
- Sei. [Mentira. Alguém ajuda?]
- Então... achei que você poderia entender.
- Ah, tá.
O papo seguiu. Ela contando a sua vida, eu incapaz de assimilar tanta informação. Ela me convidou para aparecer no aniversário dela, Terça-Feira. Vai fazer uma comida em casa. Só não é para chegar muito cedo, nem muito tarde.
- Mas agora, vamos voltar pra lá, porque eles estão todos com raiva de mim. Roubei você...
- Ué! A gente conversa com quem quiser!
Ela baixou os olhos.
- Sabe o que? Acho que vou aceitar meu filho como ele é...
- ... Queafudê...

Ela sumiu para dentro do boteco. Eu fiquei na porta, os caras olhando para mim com sorriso curioso. Confesso que aquele copo de cachaça se tornou meio sem graça. Não consegui mais tomar. A minha cabeça já estava em outro lugar. E a chuva de repente tão tímida... Não demorei muito para ir embora.
- E MEU BEEEIIIJOOO???
Louca sou eu de achar que podia sair assim de fininho, sem despedir da Ana.
- Te espero na Terça!
- Combinado!
- Vou falar pro meu filho que você vem... Meu filho... minha filha... enfim...
Ela ficou um tempo pensativa, como analisando suas próprias palavras.
Lhe dei mais um abraço apertado e fui embora.

Eu não entendo NADA dessa vida.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

As nossas opiniões

Com essas idas e voltas entre dois mundos, compartilhando experiências e narrativas, eu fico cada vez mais preocupada ao perceber a facilidade com que se constrói uma opinião. Nada mais fácil, aliás, do que ter uma opinião sobre algo. Não é preciso nenhum conhecimento prévio para inventar ou adotar uma ideia e ainda defendê-la nas redes sociais, num boteco ou na imprensa. Pior: em geral, quanto mais desinformada a pessoa, mais formada a opinião.
Meu Tio Santiago sempre disse: quem viveu um dia num país escreve um livro, quem viveu uma semana escreve um capítulo, quem viveu um mês escreve uma frase... quem viveu mais de um ano já não escreve nada. Eu diria que quem nunca saiu de casa escreve enciclopédia.
Aqui na França, muita gente, inclusive de esquerda, expõe sua opinião sobre a política do Brasil, com a certeza de que a Dilma foi afastada por corrupção, que a prisão do Lula é um pedido popular, que a mídia brasileira é livre e a justiça imparcial. Costumo responder (depois de respirar fundo) que a situação é um tantinho mais complexa...
No Brasil também, já passei noites inteiras discutindo sobre a Europa e, em especial, sobre a questão do terrorismo islâmico, me deparando muitas vezes com uma visão meio estereotipada dos "árabes" e das "periferias" francesas. Bom lembrar que o islam é uma religião com várias correntes (inimigas), abrangendo centenas de países, etnias, idiomas, pensamentos, práticas, e classes sociais das mais ricas às mais pobres do mundo. Também me parece arriscado atrever-se numa leitura das sociedades europeias com referências sul-americanas.
É que as coisas não são triviais. Nenhuma matéria jornalística, nenhum vídeo, nenhum livro poderia relatar de maneira minimamente ampla essas problemáticas.
Só nos resta opinar a toa... Ou então moderar o nosso discurso e aceitar certos limites.
Ou mais difícil: adotar uma atitude.
Porque o mundo não precisa de tantas opiniões (já tem muitas!): ele precisa de ações.
Ações locais, humanas, concretas, humildes, fortes. Cada um fazendo sua parte.
Esperando e confiando em que outras pessoas também estejam fazendo sua parte em outros lugares, interferindo com uma realidade que é delas e que elas conhecem melhor do que nós.
Bora?

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Quantas músicas

Quantas músicas vamos escutar
Quantas horas vamos lamentar
Quantas luzes vamos apagar
Quantos versos vamos declamar

Quantas músicas por um carinho
Quantas horas você sozinho
Quantas luzes num só caminho
Quantos versos por um espinho

Quantas lágrimas que já secaram
Quantas bocas que já gritaram
Quantas lutas que já venceram
Quantos gritos que ressoaram

Quantas épocas pra a gente lembrar
Quantas léguas pra a gente andar
Quantas velas pra a gente apagar
Quantos gases pra a gente inalar

Quantas músicas na sua platina
Quantas horas na sua rotina
Quantas luzes na sua retina
Quantos versos na sua estima

Quantas dúvidas no fundo do peito
Quantas balas furando seu peito
Quantas almas morrendo no peito
Quantos golpes abaixo do peito

Quantas músicas a lua cantou
Quantas horas o tempo marcou
Quantas luzes o fogo queimou
Quantos versos o vento levou

Et quantas músicas...
Quantas músicas...

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Et tes enfants...?

 

- E os teus filhos? Tudo bem?
Eu ODEIO quando fazem esse tipo de pergunta pros meus pais. Pior ainda na minha presença...
- Tudo ótimo. Os meninos estão muito bem. O primeiro acabou de defender uma segunda tese e recebeu elogios do juri. Agora é bi-doutor. A mulher dele está grávida de uma terceira filha. Não tem nem o que dizer...
- E o outro? Vi ele na imprensa esses dias...
- Pois é. Ele também está muito bem. Cada vez mais reconhecido na sua profissão, viaja bastante, convidado para participar de seminários, palestrando por tudo o que é lado... Incrível. E ele também vai ser pai em dezembro...
- Que maravilha...
O carro andando e eu afundando no banco de trás.
Agora vai ser a minha vez. Agoravaiseraminhavez. Agoravaiser...
Sinal fechado. O carro parou e o cara virou para mim, muito sério.
- E você?
-...
- Fazendo a Revolução?
- ...?!
Sabe, aquela vontade de abraçar alguém? Senti meu rosto ficar mais vermelho que comunista.
- Gostei disso... - eu falei - Acho que é por aí, mesmo...
- Muito bem. Os filhos vão esperar!
Deixei escapar um sorriso aliviado. O sinal abriu. O cara piscou o olho e arrancou o carro. O pai ficou quieto. Um dia, eu converso com ele.



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Exata solidão

17 de agosto de 2007, 21hrs. Aeroporto de Paris, puxando uma mala vermelha gigante e pesadona. Indo para o Brasil, pela primeira vez da minha vida.
16 de agosto de 2017, 21hrs. Aeroporto de Rio de Janeiro, mochila nas costas, embarcando pra Paris.
Passaram 10 anos. Bom. Menos um dia. Aliás, acho que foi só de sacanagem comigo mesmo que comprei a uma passagem para o dia 16. Só para não fechar essa conta.
Em dez anos, a minha vida mudou bastante e deu imensas voltas. A maioria boas, muitas que não teria como contar... E que, de fato, ninguém acompanhou. Ninguém.
Nem eu.
Exata solidão.
Na fila dos passaportes, do lado dos estrangeiros.
Ainda não sei muito bem para onde estou indo...
Estou precisando fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Tipo: sentar no chão, aqui, agora. Ou melhor: sair correndo, gritar, berrar, bater num vidro, quebrar tudo.
Só que não dá...
Dizem que o caminho vale sempre mais do que o fim. Já me contentei com isso.
Mas na ausência total de fim, eu fico me perguntando hoje se ainda existe algum caminho...

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Dar o golpe

 

Viajar é como dar um golpe na sua vida.
Igual à criança que dá um chute num castelo de areia...
Só que em câmera lenta. Vendo cada grãozinho voar lindamente pelo ar... e cair morto no chão.

Acabou. A vida retomou a sua velocidade normal - quer dizer, convencional - de 24 imagens por segundos.

E você aí... se deparando com as ruínas... mente desfeita, lágrimas a caminho dos olhos... negando com convicção toda responsabilidade por aquilo.

E A G O R A ?

Você acabou de desconstruir tudo o que chegara a pensar e fazer desde a sua última viagem.

sábado, 15 de julho de 2017

Você que não olha para sua vida
Escuta a chuva
Sente o asfalto
Abraça o fato
De não ser ninguém
E quando o mundo girar
Não fica relembrando
Dá um pulo no vazio
Que é para te salvar
Dança, descansa, balança
Nesse tal desavanço
Usa com vaidade
O que te sobrar de corpo

terça-feira, 11 de julho de 2017

Rio de Janeiro


Rio de Janeiro, Zona Norte, 11 de julho de 2017

Cara... Eu queria dominar algum idioma que me permita descrever o meu cotidiano aqui no Rio. Essas tardes de "trabalho" [me perdoem as aspas] na casa onde estou morando, eu editando vídeos e amigos, na sala do lado, desenvolvendo um dos mais coerentes e sucedidos projetos sociais e culturais que eu conheci na minha vida - e para o qual eu tenho agora a honra de dar umas palinhas de fotógrafa. Gargalhadas contínuas e debates ardentes, chegando a planejar cinco ou seis revoluções mundiais por dia.
Cara... Eu fico só pensando nessas inumeráveis pessoas que para quem eu devo tanto - ou deveria, se fosse o caso de saldar a dívida. Famílias [sem aspas] que te agregam à força e fazem que, apesar de muito longe do conforto da placenta da sua mãe, você ainda consegue receber aquele carinho, aquele calor, aquele amor que te abre o único acesso possível à felicidade - porque sem isso, você não tem nada. Nada.
Cara... Não vou nem citar a galera TODA de Porto Alegre para quem ficarei devendo eternamente aquele quasetudo da vida. Muita saudade, mesmo. Mas enfim, só queria registrar que aqui no Rio, também, acabei encontrando um pessoal extra-ordinário.
Cara... Eu sigo não acreditando muito em Deus, mas tenho que admitir que ele parece gostar de mim igual. E tem mais um detalhe. Estou, pela primeira vez da minha vida, "trabalhando" [com aspas] e me "sustentando" [também] fazendo apenas música e vídeo. E ainda por cima em projetos que me dão orgulho.
Cara... sabe o que? Hoje é o aniversário da minha Mãe. É, aquela Placenta e Tanto Mais, para quem se deve TUDO mesmo, e que nunca se agradece como deveria. E aqui tô eu, no Rio de Janeiro, meio que caída de paraqueda. E sabe o que? Acho que acabei de tirar a foto mais bonita da minha vida.
É isso aí, cara... Em casa... Tomando um vinho... Estou feliz.

domingo, 9 de julho de 2017

Minha vida não se resume com palavras
Nem poderia se limitar à cidade
Guarde suas teorias
Verbos enfeitados de rimas e versos
Procure o que eu sinto, penso
Sonhos ao contrário
Acorda para me dizer adeus
Teu olhar fugido num respiro
Acorda, eu falei, estica esse corpo
E tenta agradecer o teu desejo
Desalinha o pensamento
Que logo deixará de ser humano
Procura enxergar além do que foi dito
E grita, meu amor
Grita só

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Cansei de sonhar
Não quero mais
Querer em vez de ser
Acreditar com tanta força
E deixar de tentar
Como se não precisasse mais
Acordado ou dormido
Inconsciente ou vivo
O sonho é uma bosta
Tanta ambição
Tanta frustração
Quero sair da minha cabeça
Sonhar é ilusão de vida
Como se tivesse tempo para isso!
Sonhar...
Só depois de morrer, mesmo.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Oração ao pai

Quando eu estiver vivendo por dentro
Lembrando o que eu fiz, esquecendo o que estou fazendo
Me iludindo com a própria história
Resgatando as vitórias e enterrando as derrotas
Pretendendo que eu já fiz a minha parte
Exigindo respeito, exibindo medalhas


Quando eu desistir de superar o que foi feito
Quando eu achar que as conquistas não se defendem
Ou quando eu estiver apenas defendendo elas

Quando eu pendurar na minha porta trancada
A lista dos lugares por onde eu andei

Quando eu tiver a tua idade
Sabendo de tudo
Com raiva do passado e medo do futuro
Quando eu deixar de questionar, criticar, aprender
Escutar

Quando eu quiser te ensinar

Quando meus sonhos não forem nada mais do que sonhos
E quando eu não for nada mais do que palavra

Aí, sim, Pai, me dá um tapa na cara!
Rasga minhas fotografias
Apaga minha memória
Queima meus cadernos
Me joga na estrada
Faz eu viver de novo!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Século passado

O foda foi nascer no século XIX.
Ter que trabalhar todo dia e lutar para conseguir comida e moradia.
Enfrentar epidemias, doenças, daquelas que só matam os pobres.
E sofrer tanta exploração, os donos de grandes fábricas botando até a criançada na linha, pagando uma miséria. Pra eles ficarem mais ricos, que é pra serem felizes.
Mas seguimos aí, acreditanto no futuro. Tem que acreditar, sim. O século XX vai ser muito melhor.
Os ricos terão tanto dinheiro que já nem vão querer ganhar mais.
Já não vai ter ninguém mais passando fome. Com o conhecimento, as tecnologias, as técnicas de cultivo, vai ter até comida sobrando pra repetir. E quase que ninguém vai precisar trabalhar para isso.
E ninguém vai ficar sem teto também. Com tanta construção, a cidade vai acabar ficando cheia de prédios ociosos e abertos pra quem não tiver onde dormir.
Assim vai a humanidade, crescendo, aprendendo, melhorando suas condições de vida. Descobrindo a solidariedade.
É. O futuro só pode ser melhor.
Foda é esse século XIX que demora tanto para acabar...

domingo, 9 de abril de 2017

Sementes

Se um espaço existe por si só, quem ocupa lhe dá vida.

2016 começou para mim com dois desalojos.
Duas casas destruídas para virar estacionamento ou terreno baldio.
Sonhos desrealizados.

Um ano depois, nasceu até um matinho em cima daquelas ruinas.
Algum dia, ele também será abafado.
E ele já sabe.
Abafado com concreto, a troca de dinheiro, e certamente com a bênção dos que envenenam a terra e privatizam os bens públicos.

Ordem e progresso.

Eu andei pensando sobre o que foi esse ano para mim.
Nômade.
Indignado.
Lutando a toa, sem saber por onde começar.
Ocupando e desocupando.
Acumulando muito, MUITO amor e muita, MUITA raiva.
Até chegar ao ponto de não ter mais espaço para nada, nem na cabeça nem no corpo.

2017: de volta ao ponto zero.
Pertences na mochila.
Olhando pra cima e jogadx para baixo.
Casas, aviões e pessoas seguem sendo derrubadxs.

Eu cheguei à conclusão de que não se constrói nada na vida. Nunca.
Nada que não possa ser destruído de maneira arbitrária em um par de segundos.

Mas afinal, por que tanta pressão?
A natureza sabe tudo.
Não se constrói nada, mesmo.
Só se FAZ.

- OKUPA Y RESISTE -