quarta-feira, 18 de abril de 2018

Eu e a Bixa

É que os amigos são muito careta, às vezes. Saem duma reunião e vão para outra. Ou vão para casa. Ou estão cansados. Ou acham que com R$5,00 no bolso, não vão para lugar nenhum.
Enfim... não era nem 21 horas e eu me encontrava sozinha na Lapa com a Bixa (é nome da minha bike).
Fomos andando.
Paramos num boteco. Lógico.
Aquele que tem os piores tragos, mas onde todo mundo conversa com todo mundo. É disso que eu precisava. Ver as pessoas conversarem. Eu já não tinha mais nada para falar. Fiquei aí observando, saboreando uma daquelas canhas de garrafão, baratíssimas e bem servidas.
Quando acabou, fiquei mais um tempo discutindo comigo mesmo para decidir se era o caso de repetir ou de voltar para casa... Acabei optando com uma determinação surpreendente pela segunda opção.
- Você tá tomando o quê?
Um cara chamou lá do fundo do bar.
- Eu? Nada!
Olhei pro meu copo vazio.
- Eu tava com cachaça, mas...
- Pede mais uma!
- Precisa não! Obrigada! Já tô indo...
- Pede mais uma e põe na minha conta!
- Obrigada, mas não vou querer, mesmo.
- Eu gosto da sua música!
- ... ??? ... !!!
- Pede mais uma!
- Peraí... Onde é que você me viu cantar?
- Em vários lugares! E já te vi andando por aí, também, naquela bicicleta colorida.
- ...
- Pior é que nunca te dei nada! Qual é a cachaça que cê quer?
- Sei lá! Tanto faz... Pode ser essa mineira, aí...
- Moço! Serve mais uma! Ou duas! Que essa menina canta muito!
Falou bem alto para todo mundo ouvir, deixou pago e foi embora.
...
Bebi.
...
E aqui tô eu...
...
..
.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Chorei

Chorei, meu. Chorei. Aquele dia.
Não à noite. À noite, eu fiquei olhando as estrelas. Elas não estão no lugar certo, já percebeu? Os desenhos delas... Os triângulos são muito tortos! Os quadrados não são nem um pouco quadrados. Mas às vezes, falta pouco. Dá vontade de dar uma mexidinha, bem de leve, na ponta dos dedos...
Fiquei horas aí, esperando para ver se elas iam se mover. Mas só piorou. E acabei dormindo. Lá pelas três ou quatro horas. No chão do terraço.

Não foi nem o sol que me acordou. Quem me acordou foram os aviões, passando logo ali, em cima da minha cabeça. Costumo escutar eles quando estou no quarto. Mas não sabia que eles passavam tão perto. Muito perto, mesmo. Muito perto.
Levantei. Fiz um café. Normal. Tomei um banho gelado, que era para acordar. Não deu certo. E demorei para sair. Quando desci, o pessoal da casa já tinha acordado. Oscar sentado no sofá, com café e cigarro na mão. Oscar sempre tem uma palavra gentil quando me vê passando com violão nas costas. Até confesso que, às vezes, eu faço questão de esperar ele levantar para sair, só para pegar esse pouquinho de ânimo que faz falta.
- Bom dia!
- Bdia...
- Vai tocar?
- Vou.
- Ai! Minha heroína!
- Obrigada, Oscar.
Fui.

Calor infernal na rua. E aquele pressentimento no caminho, de que hoje não seria o dia... Mas também, não tinha como saber. Achei um cantinho de sombra numa calçada e montei o equipamento.
Já suando.
E comecei a tocar.
...
Meio vazia. Invisível.
E as pessoas passando.
Negando até um olhar, um sorriso.
Não era o dia, mesmo. 35 graus não é mole. Só sai pra rua quem tem algo muito importante para fazer. Não tem ouvido nem para samba.
E eu cantando.
Fingindo.
Pingando.
...
Volte e meia, alguém afrouxava o passo e botava a mão no bolso. E depois olhava para mim com cara de: “Poxa, se eu tivesse aquele realzinho, eu até te dava...” E seguia seu caminho.
...
Depois de uns 40 minutos, um rapaz finalmente achou aquela moedinha no fundo do bolso e me deu. 50 centavos. Agradeci do coração.
...
Depois de quase duas horas cantando, eu tinha ganhado mais três notas de dois e alguns trocados.
Dava vontade de chorar, mesmo...
Mas não chorei. Segui tocando.
Claro que o certo era voltar para casa. Mas também... voltar para quê? Não tinha nada para fazer em casa, mesmo...
...
Melhor estar aqui tocando... mais uma música...
...
Mais uma.
...
Mais umazinha...
...
E nada. Ninguém. Nada.
...
Tá, mais uma... e depois dessa...

Aí, já não lembro qual é a música que eu estava tocando. Só sei que eu estava chegando no final dela. Tipo, última estrofe. Quando uma senhora apareceu de repente na minha frente e agarrou a minha mão. A mão direita, a que toca as cordas. Tive que parar.
“Segura aí!” Ela falou, muito firme.
Segurei. Ela tinha colocado algo na minha palma.
E ficou me olhando bem nos olhos. Implacável.
“Você tem uma voz maravilhosa. Você tem que continuar.”
Falou.
E foi embora.
...
Abri a mão. Tinha uma nota de vinte reais. Bem dobradinha, num quadradinho.
Botei no bolso e retomei a música de onde eu estava.
Mas aí, começou a apertar o peito... E já não dava mais para parar. E nem para chorar.
Tomei uma água e tentei pensar em alguma música mais leve, que os meus nervos pudessem aguentar... Missão impossível. É que todas as músicas que eu toco trazem consigo sua carga emocional... algum amigo, algum lugar, alguma lembrança.
“Se a gente lembra só para lembrar... O amor que a gente um dia...”

Aí chegou uma outra senhora. Argentina, ela. Parou na minha frente, abriu a carteira, puxou uma nota de vinte reais e a colocou no chapéu. E foi embora, ainda agradecendo com sorriso educado.
...
Aí foi demais.
Fiquei parada. Pensando... Me perguntando... por que é que às vezes as coisas dão certo... E às vezes não. E qual é a nossa responsabilidade sobre isso. O nosso poder. E quantos fatores interferem. E que não têm nada a ver com a gente. Ou talvez tenham. E quantas pessoas. E quantas coisas que a gente não entende. Sequer percebe. Quantas coisas... A gente...
E desmontei. Não chorei, não! Mas fiquei sem fôlego. Fui guardando as coisas, devagarinho. Com calma.
E voltei pedalando no sol.
Ainda parei no caminho para comprar comida, com aquela segunda nota de vinte.
Mas a primeira, eu guardei. E tá guardada ainda. Dobradinha, daquele jeito. Vou gastar, não.

Quando cheguei em casa, o Oscar estava cozinhando. Meio atrasado, meio atrapalhado... Fui direto pro quarto.

E caí em cima da cama.
Suadaça. Molhando os lençois e tudo.
Nem liguei o ventilador.
Fiquei aí. Deitada.
Naquele bafo.
...
...
...
E aí sim, meu...
Aí sim.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Atrás da porta

Casa de madeira. Clic! Roupas penduradas. Clic! Pessoa varrendo. Clic!
Um menino correndo...
Não deu tempo.
Passou por mim e sumiu.

A rua ficou silenciosa de novo.
...
Clic!
- Aqui é minha casa!
Eu sabia que ele não estava longe.
Uma porta abriu levemente atrás de mim, deixando aparecer uma cabecina.
Fiz de conta que eu não estava vendo e fiquei tirando fotos. Depois de um bom tempo me observando, ele perguntou:
- Você é menino ou menina?
Dei um tempo antes de responder. Não esperava essa pergunta, apesar de já ter passado muitas vezes por essa situação com outras crianças.
- O que você acha?
Ele encolheu os ombros e foi sumindo de novo atrás da porta, como se tivesse feito alguma coisa errada. Ele devia ter sete ou oito anos. Baixei a máquina e olhei para ele sorrindo, deixando claro que estava tudo bem, que eu não estava ofendida.
- Sou menina.
Então, ele botou de novo a cabecinha para fora, agora mais seguro... avaliando a minha resposta...
E não ficou satisfeito, não.
- Então, por que é que você tem o cabelo curto?
- Porque eu cortei, ué!
Sacudiu a cabeça com ar muito sério.
- Não pode.
- E por que não?
- Porque se você é menina, tem que ter cabelo comprido!
Essa também, já ouvi muito, e de várias crianças.
Não respondi nada. Voltei para a minha tarefa, escondendo os pensamentos atrás da máquina.
Ele também encostou a porta para se esconder... Mas logo abriu de novo... E fechou. Abriu. Fechou. Abriu:
- E por que você usa roupa de menino?
- Eu uso roupa de menino?
- Tá usando!
- Isso aqui que é roupa de menino?
- É!
- Nossa! Eu nem sabia!
Da minha ironia, ele não achou nenhuma graça.
- Você é menina! Tem que usar roupa de menina!
- Sei lá... Eu uso as roupas que eu quiser... E o cabelo que eu quiser...

Sem eu mesmo perceber, acabei me aproximando bastante dele, parando na entrada da casa.

Ele brincando com a porta e eu aqui do outro lado, apontando a máquina bem na cara dele...
Abriu. Fechou. Abriu. Fechou. Abriu... CLIC!
- Ei!
- Tirei!
Eu ri, sincera. Ele fez uma cara de bravo, mas não interrompeu a brincadeira. Ela já era parte da nossa relação.
Ele abrindo a porta lentemente... Olhando no meio do objetivo... Deixando à vista apenas um fiozinho de rosto... E fechando num susto!
Abriu... ... ... Fechou!
Abriu... ... ... ... e deixou aberto... justo na largura da pupila...

Então, ele falou assim, bem baixinho:
- Eu também gosto de usar roupa de mulher.


terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Noite carioca

Saí de casa meio correndo, como sempre, no impulso, enfiando rapidamente as coisas no bolso: chave, celular, caderno, dinheiro...
Parei.
Dei uma olhada geral no quarto. Aquela impressão de estar esquecendo algo...
Apanhei o violão e fui.

Já era noite, mas não sei que horas. Nem sei para onde eu estava indo. Era domingo.
BAM!
Uma moto. Atropelada bem na minha frente. Dois meninos jogados no chão que nem bonecos. Vivos. Nada muito grave. Um pode ter quebrado a perna, o outro deslocou o ombro. A SAMU chegou.

Atravessei a rua e fui parar num boteco.
- Moço! Me dá uma...
O garçom já estava vindo na minha direção com sorriso cúmplice e martelinho de cachaça na mão.
Sentei.
E fiquei aí me questionando sobre a necessidade de me questionar sobre a minha vida no Rio.

- É que a vida é dura!
Quando ergui a cabeça, tinha um rapaz do meu lado.
- É assim mermo! A vida é dura! O cara que não sabe!
- Quer uma cachaça?
- Precisa, não. Tenho a minha.
Ele levantou a camiseta para me mostrar a garrafinha de caninha da roça que ele guardava amarrada na cintura.
- E aí? O que houve? - perguntei.
- Furei! Eu passei o dia todo catando latinhas, sabe o que é isso? É trabalho! E aí, eu tava indo pra lá pra vender e o cara veio me roubar. Eu furei ele!
- Como assim?!
Ele olhou pros lados e puxou o cantinho da luva que ele usava na mão direita, deixando aparecer duas facas afiadas.
- Eu ando preparado...
- ...
Botou um cigarro na boca e agarrou um isqueiro no balcão.
- E cadê as latinhas?
- Vendi. Assim eu comprei a cachaça! E ainda sobrou!
Ele abriu a outra mão para me mostrar um papel bolado que parecia uma nota de 10 reais.
- E cadê o cara?
- Sei lá!
- Mas ele tá bem?
- Levantou, foi embora!
- ...
- Ele achava o quê? Que podia mandar em mim? Só porque tem duas vezes meu tamanho? Ele não sabe, não! A vida é dura! Eu te digo! Tive que furar!
Ascendeu o cigarro e foi embora.
- Tchau! Desculpa qualquer coisa!

Fiquei sem reação, vendo ele se afastando no escuro. Alguém veio falar no meu ouvido.
- Rio de janeiro, menina. Te cuida.
Um senhor. Respondi com olhar indiferente. E puxei o violão, que é o que eu faço quando não sei o que fazer.

Comecei a dedilhar. Uma turma barulhenta e bêbada passou então na frente do boteco. Titubeando. Alguns aproveitaram para entrar.
- Olhaí que tem até um cara tocando!
Ficaram me observando um tempo.
- É menina.
- Heim?
- Você falou "um cara". Mas é uma menina!
- É.
Até que num gesto totalmente natural, um homem pegou a minha cachaça e tomou ela num trago só.
- UÉ!!!
Gritei. E parei de tocar. Ele levou um susto.
- Era sua? Foi mal...
- Agora pede outra!
- Será?
- Simsinhor!
Ele pediu. Pediu até duas. E mais uma carteira de cigarro. Mas o resto do grupo já estava querendo ir embora.
- E aí? Tão fazendo o quê?
- Comprando cigarro!
- Tão demorando!
- Por causa dela! Ela que tá tocando!
- O que é que tem a ver?
O homem virou para mim, cobrando.
- Não é que você canta?
- ...
- Então manda um samba aí para eles ver!

Silêncio.
Todo mundo olhando para mim. Esperando alguma coisa acontecer.
E aí?!
Tudo bem. Baixei a cabeça e comecei a tocar.
Eu nem estava no terceiro acorde, quando a turma toda se empolgou para cantar junto.
E assim seguimos a noite, na maior alegria, passando a viola, desafinando Chicos e Caetanos.

Quando o último cara espalhou todas as suas moedas no balcão e perguntou se podia pagar com R$2,35 uma última dose daquela mineira, entendi que estava na hora de ir embora.
Guardei a viola.
O garçom pegou os trocados e serviu um mais martelinho transbordando de pinga.
- Cê mora longe?
- Por aí...
- Te cuida...
- Eu sei.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O Mar

Caminhei até o mar.
Nunca fui muito do mar, mas estou gostando cada vez mais dele. Ele tá sempre aí quando você procura. Não vai faltar.

É que não dá para duvidar de tudo.
Eu, por exemplo, precisava de alguma certeza para me segurar. Tipo, sei lá, que amanhã, vai chover...

Só que não. Não vai.
Porque sempre que disserem que vai, não vai.
E se disserem que vão, não vão. E se disserem "vamos!", nem se mexa...

Portanto, qualquer coisa que for acontecer, não acontece.
O que acontece, é de golpe, sempre.
...
...
E então eles dizem: "Tem que Reagir!"

Parece que estamos voando sem asas, num céu estrelado de ideias lindas.
Tentando agarrá-las. Cada um por si, ainda pedindo a ajuda dos outros.

Diz o ditado que não se pode contar com ninguém, a não ser consigo mesmo.
Bom. Eu acreditei no exato contrário durante toda a minha vida.
Mas tudo bem, não tem idade para aprender.
[Outro ditado.]
Temos que voltar para o mar.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Pequenos cuidados

"Eu queria que você se cuidasse mais..."
Lembro muito bem da única vez em que um amigo me falou isso, ainda com toda a cautela de quem suspeita a minha propensão meio adolescente a estourar com esse tipo de intromissão na minha vida.
Agora, não lembro de quantas vezes eu quis falar a mesma coisa para uma pessoa que eu amava. Nem foram tantas vezes. Mas igual, não falei. Provavelmente por orgulho e respeito escancarado pela liberdade dos meus amigos; ou por não ter encontrado a mesma delicadeza no tom e nas palavras.
Ou talvez, também, por medo de reproduzir a hipocrisia de uma sociedade que fica alertando a gente o tempo todo mas anda conscientemente a caminho de um suicídio coletivo. Tipo, o irmão que te manda fechar os olhos, te puxa pelo braço em direção ao abismo e te assusta a cada passo com os buracos da estrada.
Ou tipo a mãe que põe uma panela de brigadeiro na tua frente, uma colher na tua mão e sai avisando (com pouca veemência) que não é para comer porque faz mal.

E você fica aí, roído pelo súbito desejo de um docinho, mas sem conseguir avaliar a seriedade do risco e o tamanho das tais consequências. Pois aqui estamos todxs: mercê de uma civilização decaída, que inventou o pornô com camisinha, o banho de sol com protetor e a coca-cola zero vendida em farmácia.

"A cada geração seus problemas" me explicou um dia um velho amigo que hoje faz carreira na indústria petroleira.
...
Você agarrou a panela quase sem perceber, já no automático, enquanto estava fazendo as contas.
São 24 horas por dia. Oito horas no trabalho, duas no transporte, duas para comer e sete para dormir. Resta encaixar a novela, a igreja, o jogo, a maconha, os filhos e o namoro. Realmente, e mesmo contando com o fim de semana (salve!), sobra pouco tempo para viver - e ainda com cuidado.

Chegando nessa conclusão, você segue se deleitando como nunca com aquele concentrado achocolatado de açucar e lactose. Mas sem deixar de lembrar das sagradas recomendações da sua mãe.
Cuidado para não se sujar, cuidado para não cair, cuidado para não se machucar, cuidado para não se resfriar. Cuidado para não esquecer de nada, para não se atrasar, para não se perder!
Não sai pra rua sozinho - nem mal acompanhado! Nem se casa à noite. De dia, só armado.
Cuidado com o assaltante, cuidado com o motorista, com o cachorro brabo, com o bichinho da goiaba, com o calor, com o frio, com a chuva, com o vento...

MA ESTOU ME CUIDANDO, MÃE! Eu me cuido, me cuido, sim, todo dia! A prova é que estou viva! Pedalando com toda força - cadê o capacete, p...?! - no meio dos carros. Até pararia no sinal, se eu não estivesse na contra-mão.

É quase meia-noite.
Eu já não sei mais o que eu queria dizer com esse texto.
O amigo petroleiro tomando drinque em Dubai e você cuidadosíssimo ao raspar o fundo da panela com a ponta da colher.
Todxs nós começando de repente a questionar a prerrogativa do prazer de hoje em relação ao amanhã.
Mas indo dormir às 23h59, com a consciência aliviada.
"Amanhã é outro dia", disse um tal profeta.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Certos Errados

Coloquem na mesa de um debate duas pessoas honestas, igualmente inteligentes e com uma certa afinidade em termos de valores e ideais: mesmo assim, há uma grande probabilidade de que elas acabem encontrando algum ponto de discordância sobre o assunto discutido.
Mas qual seria, então, a proposta de um tal confronto? Definir quem está "certo" ou "errado"? Confesso que tenho as minhas dúvidas em relação à eficiência (e utilidade pública) de tantos debates cegos e surdos, onde os participantes competem entre eles por um glorioso prêmio da razão.

Deixa eu contar uma história. A de um morador de rua que eu conheci em Curitiba e que me explicou um dia por que, apesar das dificuldades que ele estava passando, ele não sentia nenhuma vontade de seguir um caminho mais inserido na sociedade. Aquelas pessoas tristes e caretas atravessando a praça... Aquele estresse do trabalho, do carro, dos horários, da família... Ele não queria isso para ele. Preferia se virar de outro jeito. Perguntei meio brincando o que a mãe dele achava disso. Ele respondeu muito sério, ponderando.
"É... minha mãe... ela acha muito errada a minha vida. Mas é que ela tem o "certo" dela. E eu tenho o meu "certo". Cada um tem seu "certo" na vida. É assim...
Suas palavras ecoavam na minha cabeça enquanto, na rua, dezenas de carros parados no trânsito emitiam numa nuvem de fumaça quente. O menino seguiu falando:
"Mas olha... O meu certo... nem é tão errado assim!"

É que o nosso "certo" nunca deixará de ser nosso. Quer dizer, por mais metódicos sejam nossos raciocínios, eles se baseiam apenas na informação que chegou aos nossos ouvidos e nas percepções extremamente pessoais que temos da realidade. É bom lembrar que a nossa leitura de qualquer situação vem sempre filtrada pelas nossas experiências e lembranças, referências culturais, educativas, acadêmicas, relacionais (...) e até pelo nosso estado emocional.
E é por isso mesmo que a troca de ideias com outras pessoas, desde que procure entender as divergências e não combater o pensamento alheio, é tão revolucionária. Sim, revolucionária. Porque os nossos "certos" e "certíssimos" têm sempre alguma coisa de errado, algum elemento faltando que ainda nos cabe descobrir para poder evoluir e crescer.
Essa busca, desconstrução permanente de si mesmo, baseada no respeito pelo outro, é o que nos mantém vivos, enquanto o estado vegetativo da velhice começa justamente com a pretensão de ter visto tudo e com a arrogância de achar que sua experiência já vale todas as outras.

Nesses tempos de intolerância máxima, temos que ter paciência e juventude na alma. Não podemos envelhecer agora...
Sequer começou 2018 ainda!